quarta-feira, 20 de maio de 2020

A perda de um mundo que “conhecia” - parte I

As cinco etapas do luto e da perda de Elisabeth Kubler-Ross
Ilustração de Cristina Gondar

Explorando as cinco etapas da perda e dor ... 


A vida é um processo de mudança e transformação do qual a perda faz parte. Toda a perda traz consigo alguma forma de pesar, dor e muitas vezes o luto. A perda acompanha-nos toda a vida, de facto podemos dizer que desde o momento da nossa conceção a perda passa a ser nossa companheira nas mais diversas formas. A primeira respiração é a perda da cumplicidade com o ser no qual gestámos e o início do nosso caminho como ser independente e autónomo, mas também interdependente e vulnerável. A passagem de criança a adolescente, a entrada na maturidade, o envelhecimento, são diferentes fases da vida que vamos percorrendo, e que implicam a perda de algo do que éramos, algo que tínhamos, para poder tornar-nos na nova versão de nós mesmos.

Para além da perda inerente ao crescimento, há tantas outras formas de perda intrínsecas ao nosso percurso humano. Perdemos amigos, amantes, filhos, trabalho, carreiras, saúde, faculdades, expectativas, fé, entre outros. Perdemos também, tradições, costumes e modos de vida. A vida é um processo de mudança e transformação do qual a perda faz parte. Toda a perda traz consigo alguma forma de pesar, dor e muitas vezes o luto.

Também eventos sociais profundos que levam a mudanças bruscas e inesperadas podem trazer consigo perda, angustia, sofrimento e dor. A situação planetária que estamos a viver desde praticamente o inicio do ano é disto um exemplo. Repentinamente perdemos um modo de vida, com os seus hábitos e normas pré-estabelecidas, perdemos familiares e amigos, contactos e laços sociais; perdemos ainda liberdades e muitos perderam a segurança do sustento, entre outros.

Refletindo em como me tenho sentido durante esta etapa da história da humanidade, observei sentimentos de tristeza, frustração, algumas vezes expectativa e entusiasmo, muitas vezes simplesmente confusão e incredulidade… e claro, medo! Neste labirinto desconexo de emoções parece-me ainda difícil encontrar direção, mas uma certeza permanece, “o mundo que conhecia já não existe e não vai voltar”, “é o fim do mundo que conheci” e diante de mim está o desconhecido!

Reconheço claramente que o mundo que ficou em suspenso tem muitas deficiências, falhas, e incluso punha em risco a sua própria continuidade. Certamente quero que regresse, mas numa versão muito melhorada!

Para me ajudar a explorar este labirinto, fui buscar as “cinco etapas do luto e da perda” de Elisabeth Kubler-Ross, que de seguida sumarizo. Tenho esperança que te possa também ser útil para entender o processo de dor, pena e luto por que tantas vezes passamos nas nossas vidas e pelo qual estamos a passar agora de uma forma global.


Elisabeth Kubler-Ross, médica e psiquiatra, dedicou a sua vida a acompanhar pessoas em final de vida e as suas famílias, tornando-se assim especialista mundial de um tema que a nossa sociedade teima em desvalorizar. A sua experiência levou-a a verificar que o luto, a dor e tristeza da perda envolvem vários estádios emocionais, que se forem reconhecidos e respeitados nos ajudam a melhor lidar com a perda inerente à vida. Estes estádios não são fixos ou rígidos, no sentido em que cada processo de luto e dor é diferente, pessoal e único, mas existem etapas comuns, embora nem tod@s passemos por todas as etapas e o processo não tenha uma ordem pré-determinada, ou seja não é um processo linear. Cada etapa tem uma duração variável e normalmente flutuamos de uma para outra, para frequentemente passarmos por duas ou três etapas, voltando de novo à primeira. 


Conhecer as etapas pelas quais um processo de luto ou perda pode passar ajuda-nos a mais facilmente “navegar” nestas “águas tormentosas”, para podermos chegar a “bom porto”, que neste caso é a aceitação da perda de um ser querido ou de algo que era importante ou significativo para nós, e assim poder dirigir a nossa energia para a riqueza da vida que se nos apresenta.

Negação ou incredulidade
A realidade e extensão da perda é algo que ainda não podemos assimilar nesta fase, assim surge a incredulidade ou a negação do que está a acontecer. Muitas vezes questionamo-nos se será verdade, se será isto realmente que se está a passar. Temos esperança que a realidade que se nos depara seja um erro, talvez um “sonho mau”. Este é o modo que a nossa psique encontra de se distanciar de algo que ainda não consegue integrar. Podemos sentir-nos paralisad@s e até mostrar insensibilidade ao que está a ocorrer.
Nesta fase, o mundo que conhecíamos, que nos dava algum tipo de conforto e segurança, desmorona-se e a vida deixa de ter sentido. Não sabemos como seguir em frente, nem se o poderemos fazer. A negação ajuda-nos a “suavizar” o desgosto e atua como um filtro deixando entrar apenas aquilo com que somos capazes de lidar no momento. É um mecanismo de proteção da psique.
À medida que vamos aceitando a realidade da perda começamos a questionar-nos, como e porquê. Como sucedeu? Porque sucedeu? Poderia ter sido evitado? O questionamento é o sinal de que estamos a iniciar o nosso processo de transformação, que nos levará a passar pelos sentimentos que agora estamos a negar.

Ira 
A ira é uma reação habitual ao sentimento de “injustiça” da perda. A ira afirma que tínhamos um laço com a pessoa, situação ou realidade, que agora é preenchido com mágoa, tristeza, incerteza, medo. A ira pode ser contra nós próprios, a pessoa querida que perdemos, a sociedade, Deus,... Debaixo da ira está a nossa verdadeira dor e tantas outras emoções!
Vivemos numa sociedade em que a ira é geralmente mal vista, mas nesta fase é importante reconhecê-la e permitir que se expresse. A ira dá-nos uma âncora temporária no vazio da perda. Por vezes sentimo-nos perdidos no mar da dor, sem conexão com nada e a ira é como uma ponte neste “vazio”, criando uma ligação entre nós e o objeto da nossa ira. O desafio nesta fase é encontrar formas sadias e aceitáveis de ventilar a nossa ira. A ira é uma afirmação de que apesar de tudo, podemos sentir, que amámos ou alimentámos um laço e que agora estamos na agonia da perda.

Negociação

A negociação é uma forma de aliviarmos temporariamente as mágoas e penas da perda. É a fase do “oxalá...”, “e se tivesse acontecido isto (em vez do que realmente ocorreu)?”, “e se eu tivesse feito aquilo… poderia ter evitado o acontecido?”. A psique entretêm-se com diversas possibilidades ou cenários que poderiam ter evitado a perda, ou minimizado os danos ocorridos. Retrocedemos no tempo, para encontrar a solução que poderia ter evitado o sofrimento e dor em que estamos.
No caso da perda de entes queridos, muitas vezes surge também a culpa. Outras vezes, recorremos a um “poder mais alto” que possa influenciar o resultado final, no caso de uma doença grave, ou uma situação de ameaça iminente ao nosso sustento familiar, por exemplo. Fazemos um pacto ou promessa com essa entidade mais elevada, que cumpriremos caso o desfecho final seja o que desejamos ou o menos doloroso possível.

[o restante artigo será publicado na próxima semana, 
mas podes aceder ao texto completo em PDF, aqui]